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A Tarde - 02/12/2005

A expansão da Ufba

NELSON PRETTO - diretor da Faculdade de Educação da Ufba – www.pretto.info

Em movimento recente, a Ufba aprovou mais dois campi universitários, um para Vitória da Conquista e outro para Barreiras, e, além disso, está em vias de aprovar um terceiro, desta feita em Irecê.

A expansão do ensino superior na Bahia nas últimas décadas foi analisada pelo professor Gustavo Roque de Almeida em recente tese de doutorado apresentada na Faculdade de Educação da Ufba, e os dados por ele trabalhados, associados com os do Censo do Ensino Superior, apontam para uma explosão do ensino privado em nosso Estado, tendência esta que acompanha de perto o movimento que vem ocorrendo em todo o País, desde o governo FHC.

Esse crescimento do privado não tem sido acompanhado pelo conjunto do sistema público, apesar da significativa expansão do número de vagas das universidades estaduais baianas, notadamente a Uesb e a Uneb. No entanto, a expansão do sistema estadual público baiano, afirma Gustavo Almeida, se dá a partir de interesses político-partidários: “Em anos eleitorais, o número de cursos criados, entre as décadas de 1980 e 1990, é sempre significativamente maior que o número de cursos criados em outros anos”.

Em termos nacionais, outro aspecto importante é que, apesar de estarmos, pela primeira vez no Brasil, com o número de vagas no ensino superior maior que o número de concluintes do ensino médio, muito longe estamos de um atendimento universal público aos egressos deste.

Urge, então, que o Estado da Bahia amplie o número de vagas no sistema público. Neste ponto, estamos todos de acordo, não tenho a menor dúvida, e é exatamente essa demanda que tem provocado políticos e comunidades locais na luta pela instalação da Ufba no interior da Bahia. No entanto, essa expansão do ensino superior não pode ser vista apenas sob a ótica do aumento do número de alunos na graduação.

Nosso Estado demanda uma ação mais ampla das universidades públicas, de modo que esse aumento de vagas na graduação esteja umbilicalmente acompanhado da implantação de um processo de produção de culturas e conhecimentos, tarefa que nem de longe é exclusiva das universidades, mas que, sem dúvida, tem nela um dos seus maiores baluartes.

No processo de construção política da Constituição Federal de 1988, quando educadores de todo o Brasil mobilizaram-se, entre tantas outras lutas, na defesa do ensino público e gratuito para todos, e pela indissociabilidade do ensino com a pesquisa e a extensão, não imaginávamos que o texto constitucional se tornasse inócuo.

Queríamos – e queremos ainda! – que essa indissociabilidade fosse praticada cotidianamente por todas as universidades, que só assim as seriam chamadas exatamente porque estariam atuando de forma diferenciada dos chamados escolões de terceiro grau.

Voltando ao caso da Bahia e da Ufba, além da necessária luta por mais universidades federais no Estado, não podemos deixar que esse movimento de expansão com a criação de três novos campi se resuma, pela falta de recursos, pela pobreza de espírito ou pela apropriação político-eleitoral-promocional desta bandeira, em meros espaços para o fornecimento de aulas no interior, com a pretensão de desafogar a migração para a capital e a pressão sobre a sede.

Mais do que tudo, se olharmos atentamente a distribuição das universidades na Bahia, vemos que o nosso sistema público de ensino superior, com a Ufba, a nova UFRB, os 24 campi da Uneb, mais a Uesb, Uesc e Uefs, também essas com seus campi, está presente, teoricamente, em praticamente todo o Estado, salvo na parte noroeste.

Sendo assim, não tem sentido que a ampliação da Ufba se dê sem uma forte articulação com as demais Instituições de Ensino Superior (IES) do Estado, e, para isso, temos que envidar todos os esforços nessa articulação, como já o fizemos na década de 1990 com o Pine – um programa que buscava articular as universidades públicas do Estado mais a Ucsal –, que, lamentavelmente, não conseguiu sair do papel, apesar das inúmeras e incansáveis reuniões.

Não podemos nos contentar apenas com mais salas de aula! Precisamos superar a perspectiva imediatista e intimista de cada instituição que busca unicamente o seu próprio desenvolvimento, numa concorrência sem sentido. O que necessitamos – e a UFBA pode, e deve, ter um papel significativo nesse movimento – é buscar uma complementariedade e integração de nossas ações, de sorte que possamos fortalecer o sistema como um todo, não nos seduzindo pelo afã da mera busca de melhores posições na lógica de ranking imposta por esta sociedade neoliberal, que não hesita em comparar tudo, fazer publicidade de qualquer coisa – inclusive de educação – para, em última instância, colocar os tais “melhores” em um pódio!

Esse desafio é do conjunto da sociedade, mas, particularmente, é o desafio existencial da Ufba e de todo o sistema público de educação superior do Estado e não pode ser deixado de lado a partir dos primeiros sinais dessa expansão. A instalação de um novo campus, no caso da Ufba, é apenas o primeiro passo de um movimento que demanda uma atuação muito maior de cada cidadão.


!!Este texto esta públicado no _Blog de Pretto_. Vá por lá e comente se desejar!

!!Também publicado no Jornal da Ciência Hoje On Line


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