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Ufba rebelde

NELSON PRETTO - Diretor da Faculdade de Educação da UFBA - www.pretto.info

A UFBA nasceu em 1946 da mesma forma peculiar que a maioria das nossas universidades, fruto da aglutinação de escolas isoladas que existiam muito antes do pitoresco ato de criação da primeira universidade no Brasil, criada para dar título honorífico a um Rei em visita ao país.

Na Bahia, as primeiras escolas isoladas foram criadas em 1832. Em 1946, Edgard Santos agrupouas dando origem à UFBA, num projeto que incluía uma articulação não muito fácil das históricas escolas profissionais com as novas e "estranhas" escolas de música, teatro e dança. Foi, portanto, com o cimento da cultura – uma Cultura com C maiúsculo e no singular, é bem verdade que ela se estruturou no cenário nacional.

Singular como o próprio Edgard Santos, que reitorou a UFBA por mais de 15 anos, impondo uma visão de cultura de forte influência ocidentaleuropéia, notadamente de elite. Mas o polêmico Edgard trazia em paralelo áreas não muito tradicionais para os valores da época, possibilitando, assim, a criação de novos setores, entre os quais, o nosso importante Centro de Estudos Afro-Orientais, "inventado" por Agostinho Silva, pensador português que andava pelo Brasil naquela época. Nascia a UFBA, portanto, promovendo a interação entre saúde, ciência, tecnologia, arte e cultura, sendo a cultura, aqui, um dos seus elementos mais primordiais.

A UFBA não se conformava com o estabelecido, partia para criar e re-criar conceitos e rebeldias.

Rebeldias, sim, pois essa deve ser a primordial função de uma universidade. Uma universidade que se acomoda, morre! Não tem o que comemorar.

A UFBA, com certeza, terá muito o que celebrar se conseguir dar a volta por cima, rodar a baiana, como bem dizemos aqui na terra, e recuperar o tempo gasto em especializações exageradas, em um olhar voltado apenas para o próprio umbigo, fechada em si mesma, e, ao invés disso, buscar, com um forte caldo de cultura, articular os diversos ramos do conhecimento, intensificando o seu compromisso na defesa da universidade como um espaço público – talvez um dos últimos! – deste mundo dito globalizado, que produz tantas desigualdades, guerras e injustiças sociais.

A UFBA, que fez ontem 60 anos, tem um longo caminho pela frente. Seus 60 anos tem que corresponder quase que como a um debutar de uma jovem que se rebela contra as orientações impostas pelo sistema e busca, quem sabe no seu passado, um jeito mais arteiro – de arte e de molecagem! – de ser. A Faculdade de Educação acredita que tem contribuído com essa permanente re-construção, atuando de forma firme e alegre, não se deixando atordoar pelas pressões ditas inexoráveis desse deus mercado. Aqui formamos professores, na esperança de que futuramente possam estar comemorando outros aniversários, com mais dignidade e rebeldia. Afinal, trabalhamos com os conhecimentos, com as culturas e os saberes e nada mais rico para um professor do que poder comemorar um aniversário com um pouco mais de rebeldia frente ao estabelecido.


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